Exorcista da diocese de Roma, Pe. Gabriele Amorth: A Oração de Libertação no Reavivamento
27.02.2009 - Segue um texto do mais conhecido exorcista da atualidade, dando todos os direcionamentos sobre esta atividade. Afirmo que estão surgindo casos como nunca, tanto de doenças quanto de distúrbios pessoais, familiares e comentários, que precisam ser analisados por este ângulo. Os espíritos do mal não perdem uma só oportunidade de manobrar pessoas, animais, plantas e a própria natureza, desde que isso provoque traumas e confusões. Deus permite a eles esta atividade não como demonstração de força deles, mas como motivo de luta aos homens, para que os vençam. A arma única é a ORAÇÃO, com Deus.
Lembrem-se, porém: o exorcismo maior compete apenas aos sacerdotes, que forem nomeados pelos bispos. Como infelizmente muitas dioceses não tem estes padres especializados, hoje e sempre o Céu tem suscitado pessoas com este dom, este carisma, de expulsar demônios. Que ninguém se meta a enfrentar diretamente estes espíritos, embora sempre DEVEMOS e PODEMOS rezar as orações de Cura e libertação. Isso diariamente e até mais vezes ao dia.
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PADRE GABRIELE AMORTH

Famoso Exorcista da diocese de Roma.
A ORAÇÃO DE LIBERTAÇÃO NO REAVIVAMENTO
A Bíblia diz-nos que a vida do homem sobre a terra é uma
luta (Jó 7,1). Contra quem? Paulo é claro: contra os
demônios (Ef 6,12). Quanto irá durar esta luta? Também o
Vaticano II é claro a este respeito ao resumir os
ensinamentos de Jesus: “A história humana na sua
globalidade está marcada por uma luta tremenda contra as
potências das trevas; luta que começou logo na origem do
mundo e que irá durar, como diz o senhor, até ao último
dia“ (Gandium et Spes, nº 37).
O cristão moderno, sobretudo, perdeu o sentido desta
luta.
Deste modo, acabou por perder o sentido do pecado e
atingiu uma imortalidade de vida total, que os cardeais
definiram como sendo uma noite ética. Atingiu uma
ignorância e uma perda de fé tais que é necessário uma
nova evangelização. Já não sabe por onde começar.
Vem em nosso auxílio Paulo VI, no famoso discurso sobre
o demônio, de 15 de novembro de 1972. À pergunta: “Que
defesa contrapor à ação do demônio?” responde: “Tudo o
que nos defende do pecado protege-nos do inimigo
invisível. A graça é a defesa decisiva”. E o discurso
prossegue sublinhando a importância dos meios comuns da
graça.
Mas nós sabemos que não existe apenas a ação ordinária,
a tentação, que pode ser vencida mediante a vigilância e
a oração. Sabemos que também existe uma ação
extraordinária dos espíritos maléficos, que assalta
homens, famílias, sociedades inteiras, causando males de
vários tipos e mesmo a possessão. Contra esta atividade
não são suficientes os meios comuns da graça, que, no
entanto, continuam a ser fundamentais. É por isso que o
Senhor deu o poder de expulsar os demônios: primeiro aos
Apóstolos, depois aos discípulos e, por fim, a todos
aqueles que acreditassem nele.
E se recebi do meu bispo
inesperadamente a faculdade de exorcizar, não pude
fechar os olhos a todo um mundo novo que descobri e às
carências pastorais que existiam e que também a mim não
me deixavam vê-lo.
Uma destas carências levamos em consideração: o quase
desaparecimento do exorcismo. Admiro os nossos bispos
que começam a fazer algo, embora se encontrem também
eles perante um problema que não foram preparados para
enfrentar. Pelos motivos a que já nos referimos, os
bispos encontram-se na condição de nunca terem feito
nenhum exorcismo, de nunca terem visto nenhum sendo
feito e, sob a influência de algumas correntes muito em
voga de acreditarem pouco nele. Há exceções, mas são
sempre exceções.
E, no entanto, a nomeação dos exorcistas é
exclusivamente responsabilidade dos bispos. Diria que
têm o monopólio absoluto numa matéria que não conhecem.
Apesar desta situação, e é por isso que os admiro, já
foram nomeados, na Itália, nos últimos anos, muitos
exorcistas. Até mesmo em dioceses que nunca tinha ouvido
falar de exorcistas e por parte dos bispos que, até há
bem pouco tempo , se tinham declarado abertamente contra
tais nomeações. Espero também que, a seguir às
nomeações, se desenvolva progressivamente a
possibilidade de uma adequada formação neste campo.
Entretanto, os próprios exorcistas procuram ajudar-se
entre si mediante encontros internacionais, nacionais e
regionais.
Mas os exorcistas não chegam para cobrir as necessidades
deste setor; e quando a Igreja latina instituiu o
exorcismo não tencionava retirar do resto dos fiéis
aqueles poderes que o Senhor deu aos crentes que atuam
com força do seu nome. Eis por que identifico uma
segunda lacuna que é necessário preencher: é também a
totalidade da comunidade dos fiéis que deve sentir-se
empenhada nesta luta.
O próprio Jesus iniciou a luta quando ensinou o
Pai-Nosso, em que a última invocação é realmente uma
oração de libertação: “Livrai-nos do Mal”. Seria mais
exato traduzir: “Livrai-nos do Mal.” O Catecismo,
corretamente, escreve a palavra Mal com maiúscula
inicial e explica: “Neste pedido, o Mal não é uma
abstração; indica , pelo contrário, uma pessoa: Satanás,
o Maligno, o anjo que se opõe a Deus”. ( nº2.851).
As orações de libertação
têm grandíssima importância. Antes de mais nada, são
suficientes para libertarem dos malefícios menores, em
que não e necessário recorrer ao exorcismo. Muitas vezes
são preciosas para descobrir a existência de um
malefício, ou seja, é um precioso auxílio em um primeiro
diagnóstico.
Mesmo quando uma pessoa precisa ser exorcizada, as
orações de libertação ajudam aos exorcismos,
aumentando-lhes a eficácia e estabilizando os
resultados. Não podemos deixar de mencionar que os
católicos tinham abandonado esta forma de oração e
recuperaram-na depois de a verem amplamente praticada
com eficácia pelos pentecostais. É sinal de inteligência
saber aprender com os outros quanto de bom nos podem
ensinar ou mesmo só recordar.
Acrescento que a oração
de libertação é uma oração privada (o exorcismo é uma
oração pública que envolve a autoridade da Igreja); pode
ser feita por todos, indivíduos ou grupos, e sobre
todos; não requer nenhuma autorização; enquanto o
exorcismo, pelo contrário, mas espero que as disposições
mudem, só pode ser administrado pelos bispos ou pelos
sacerdotes autorizados pelos bispos.
Mas a oração de libertação também deve ser feita mesmo
que não haja esquemas ou fórmulas fixas, por isso, é
suficiente observar as normas gerais das orações (é uma
oração de intercessão; o Catecismo da Igreja Católica
dedica uma parte ampla e verdadeiramente preciosa á
oração); é necessário evitar a escassez, alguns dos
quais foram postos em evidência pela Congregação para a
Doutrina da Fé, na carta enviada aos bispos no dia 29 de
outubro de 1985.
Não há dúvida de que a oração de libertação foi,
sobretudo divulgada por um dos mais importantes
movimentos eclesiais do pós-Concílio, A Renovação
Carismática (fala-se de cerca de 85 milhões de aderentes
entre os católicos) e muitos de nós exorcistas nos
apoiamos em grupos de oração, vista a sua preciosidade e
o auxílio que nos facultavam. E não hesito em dizer que
é o único grande movimento eclesial sensível a estes
problemas e disposto a acolher e a ajudar as pessoas
afetadas por este tipo de males.
Por isso, ao escrever
este tema, confiei na competência de um dos maiores
especialistas e mais conhecido exorcista da Sicília, o
padre Matteo La Grua. Há já muito tempo que é membro da
Comissão Nacional de Serviço. São preciosas as suas
muitas instruções sobre como conduzir as orações de
libertação, de cura e, de um modo geral, de intercessão
por quem sofre.
A ele devo um especial agradecimento também pela
publicação de dois livros riquíssimos de conteúdo e em
que a sua experiência é mais do que evidente: La
preghiera di liberazione [A oração de libertação] e La
preghiera di guarigione [A oração de cura] (Ed. Herbita,
Palermo). Duas obras que muito me ajudaram na elaboração
dos meus livros anteriores.
Logicamente que o padre
La Grua não tem a pretensão de tratar este tema na sua
totalidade e variedade. Limita-se a expor como se
desenrola a oração de libertação nos grupos de oração. O
quanto será exposto é conteúdo de uma conferência que
ele proferiu no Congresso Nacional de Exorcistas, que se
realizou em Toma, em setembro de 1993. A palavra ao
padre La Grua:
Como começamos
Considero que seja mérito dos movimentos carismáticos
que apareceram depois do Concilio – e entre eles, do
Renovamento no Espírito – o fato de terem chamado
atenção para a presença ativa, no mundo de hoje, do
diabo, de quem bem poucas pessoas levam a sério as suas
manifestações; há uma teologia racionalista e
reducionista que relega o demônio e o mundo dos
espíritos para a condição de simples etiqueta, que cobre
tudo aquilo que ameaça o homem na sua subjetividade.
Isto era o que já escrevia o Cardeal Suenens já em 1982,
na introdução do livro Rinnovamento e potenza delle
tenebre (Renovamento e poder das trevas) (Ed. Paoline).
Depois a vários anos de distância, a situação não
melhorou em nada, aliás, piorou. O aumento progressivo
do ocultismo e do esoterismo, o proliferar das seitas
satânicas, o multiplicar-se de magos e bruxos reforçam
pelo mundo o grande inimigo. Esta é uma história que já
dura muitas décadas. A tomada de consciência perigosa
desde o início, à prática da oração de libertação, que
os pentecostais já praticavam, e ainda praticam, em
larga medida.
Por outro lado, era dado
por adquirido que, com o despertar dos outros carismas
(a profecia, as línguas, as curas), também despertaria o
carisma da libertação: “Os sinais que acompanharão
aqueles que me acreditaram são novas línguas (...);
quando colocarem as mãos sobre os doentes, estes ficarão
curados” (Mc 16, 17-18).
Mas foi o próprio Espírito, no exercício do carisma das
curas e na prática da oração de efusão, a conduzir-nos à
oração de libertação. Isto logo desde o início. Ao rezar
sobre os doentes pedindo pela sua cura, espiritual e
física, apercebemo-nos de que em muitos casos havia um
obstáculo que impedia cura; era como se a doença
estivesse prisioneira. Pensou-se, então, que seria bom
começar com uma oração de libertação, que surtiu efeito:
os doentes, depois daquela oração, ficavam mais abertos,
mais dispostos a acolherem a graça da cura.
Lembro-me bem desta primeira experiência; poderia citar
muitíssimos episódios. O primeiro, a cura instantânea de
uma mulher que tinha um câncer num pulmão, um tumor do
tamanho de um limão, que lhe tinha sido diagnosticado
quer em Palermo quer em Paris. A mulher submeteu-se à
oração do grupo. Apercebemo-nos de que havia qualquer
coisa que impedia a eficácia da oração. Fiz então uma
brevíssima oração de libertação e depois, assim que a
mulher ficou libertada do impedimento, dei ao tumor a
ordem de desaparecer. E desapareceu neste mesmo
instante.
O mesmo se passou no episódio de libertação de um
sacerdote que veio a um retiro em Perugia: tinha o
espírito de sodomia. Era um homem enorme que sofria de
cancro no reto. Foram necessárias duas horas e meia de
exorcismo: a luta foi tremenda, luta corpo a corpo com o
demônio, que não queria ir - embora. Aquele homem, assim
que acabou o exorcismo, tinha-se tornado numa larva;
tinha sido libertado de não sei quantos espíritos, mas o
fato é que fisicamente estava muito sem forças.
Num primeiro momento, não conseguia agüentar-se de pé.
Conformei-o dizendo-lhe que o diabo já tinha ido embora
e que faríamos depois a oração da cura, uma vez que já
estava na hora da Missa. Mas durante a Missa foi-me
dirigida uma mensagem que dizia: pronuncia imediatamente
a ordem de expulsão. Então, pus-me a rezar e depois dei
a ordem de expulsão: o homem ficou logo curado do seu
cancro. Porquê? Porque o impedimento era provocado pela
presença do Maligno.
Também adquiri esta experiência: os tumores, que
atualmente tanto afligem a humanidade, estão em grande
parte ligados ao Maligno. É claro que, influencia também
a poluição atmosférica; mas o demônio vagueia pelo ar, é
o príncipe das regiões celestes, manipula aquilo que
encontra e inocula germens patogênicos. E mais, é ele
quem dá fim à vida familiar, à vida social; cria
rancores, ódios, remorsos, depois de ter induzido ao
pecado. Como afirmam também alguns médicos americanos,
tudo isto favorece o aparecimento de tumores.
Por isso, quando temos que lidar com pessoas com tumores, a primeira coisa que faço não é rezar pela sua cura, mas pela sua libertação. Em muitos casos, existe um nexo entre os dois males: entre a presença e a atividade do Maligno e a da doença.
Assim, o nosso ponto de
partida foi-nos sugerido por este fato: durante o
exercício da oração de cura notávamos que algumas
doenças resistiam, para depois cederem após a oração de
libertação.
Houve, depois, um segundo motivo de iniciar com as
orações de libertação. Foi a prática da oração para o
batismo no Espírito, que nós chamamos efusão do Espírito
Santo, pra o distinguir do Sacramento do Batismo, embora
esta prática esteja intimamente ligada ao Batismo.
Parece que este rito já
se praticava na Igreja desde o século VIII, mas depois
perdeu-se. Um recente estudo de teólogos demonstrou que
até ao século VIII se praticava a oração de efusão,
considerada complementar aos três sacramentos da
iniciação cristã (Batismo, Crisma, Eucaristia).
Atualmente, procura-se recuperar esta prática de modo a
reforçar o cristão na luta e a inseri-lo no corpo
eclesial, para edificação do Corpo Místico de Cristo.
Durante a efusão, nós reparávamos que muitas pessoas não
ficavam libertadas; mediante introspecção interior
identificávamos que as potências do espírito estavam
como que entupidas, havia um bloqueio, uma incapacidade
de recepção das moções do Espírito, das iluminações do
Espírito. E sem estas iluminações do Espírito o cristão
não pode viver plenamente a fé, a esperança e a
capacidade; ou seja, a vida de filho de Deus.
Por outro lado, notamos
que muitas pessoas tinham freqüentado magos e bruxas;
tinham também participado em sessões de espiritismo ou
de artes de adivinhação. Em suma, tinham contraído
ligações. Por isso, notávamos que havia impedimentos;
havia ainda uma atividade do Maligno.
Porque a atividade do Maligno não é tanto aquela que
notamos nos possuídos, quanto a mais sutil que o inimigo
desenvolve dentro de nós, nas potências do espírito que
presidem à nossa vida espiritual.
Então, antes da efusão,
começamos a fazer uma oração de libertação. E foram
estas as situações que marcaram o nosso começo: a
necessidade de iniciar com a oração de libertação antes
da oração de cura e da prática da efusão.
Um desenvolvimento progressivo
Como o avançar do tempo, cada vez mais pessoas vinham
até nós, pessoas que não estavam muito próximas de Deus
e que precisavam de orações de libertação; nos maiores
destes grupos, como o que eu oriento, fixamos
ministérios estabilizados de libertação. Atualmente, a
oração de libertação encontra-se muito difundida; muitos
grupos da Renovação constituíram ministérios de
libertação das amarras do Maligno naqueles que
costumamos considerar casos menores, quer no
acompanhamento do sacerdote exorcista no exercício do
seu ministério. Temos também serviços coletivos de
libertação.
Que estilo de oração praticamos na libertação?
Antes de mais nada, um estilo de oração comunitária; e
isto por dois motivos: um teológico e um pastoral. Não
preferimos a oração individual, como se costuma fazer no
exorcismo. No exorcismo é o exorcista quem atua; na
oração de libertação atua a comunidade. Damos grande
valor à realidade de Igreja, vivente em cada comunidade
de fiéis que se reúnem em redor de Cristo e invocam o
Espírito. Na comunidade dos crentes é Cristo quem atua e
continua a libertar os irmãos da presença do inimigo.
Por outro lado, consideramos com segurança que a
libertação é função do Corpo Místico de Cristo, que deve
eliminar do seu seio as infiltrações do Maligno, lá onde
elas se manifestarem; porque qualquer manifestação do
Maligno pesa sobre o corpo todo e danifica-o. Eis então
a idéia de que a Igreja, a comunidade, e em toda a
Igreja.
Há também um motivo pastoral, ou, melhor, teológico: a
oração comunitária permite a interação dos vários
carismas, que, deste modo, melhor iluminam e tornam mais
eficaz a oração. Por outro lado, preserva-nos do perigo
de sermos confundidos com magos ou curandeiros, que
atuam sempre isoladamente. A interação dos carismas é um
motivo pastoral: numa comunidade existem diferentes
carismas; como a finalidade é livra-se de um mal, um
grupo que tem bons carismas obtém mais facilmente a
libertação.
Qual é a composição ideal de um grupo?
Tratando-se de um grupo carismático, nós procuramos
antes de mais quem tem o carisma da cura. Nos primeiros
séculos da Igreja, antes que se instituísse o
sacramental do exorcizado, eram os carismáticos que
libertavam; ou seja, eram todos os cristãos que exerciam
os seus carismas. Também hoje existem pessoas que
possuem este carisma; são pessoas que vivem no
anonimato, mas que têm poder sobre o Maligno.
Nós apercebemo-nos deste fato porque na sua presença,
mesmo quando rezam em silêncio e retirados do grupo, o
paciente começa a abanar-se todo. A sua presença é
suficiente. São pessoas que, por terem este carisma da
cura, asseguram a autoridade carismática do grupo. É uma
experiência claríssima que já fizemos.
Utilizamos também o profeta em abundância. Quem é o
profeta, o profeta bíblico? É um dom de Deus também
presente nos nossos grupos. O profeta é quem recebe uma
iluminação do Espírito Santo e nos dá indicações
bíblicas. Com o avançar da oração, é que ele quem dá
indicações que acertam em cheio o alvo; por isso, a
oração é sempre guiada. Descobrimos, por exemplo, a
origem de uma doença porque no decurso da oração o
Senhor intervém sugerindo texto bíblicos adequados ao
caso em questão.
Por exemplo, o profeta sugere: “Vamos ler Isaías 4,4
seguido de Ezequiel 8,2”. É criado um clima que nos
orienta sobre como devemos agir. A presença do profeta é
muito importante; por vezes, durante a oração, o Senhor
conforta-nos, convida-nos a insistir, indica-nos a
origem do mal.
Quando é possível, também está presente o Sacerdote que
assegura a autoridade eclesiástica com o seu poder
ministerial. E também há quem interceda; há pessoas que
têm o carisma da intercessão. Quando um grupo é composto
desta maneira, com a presença de vários carismas, é um
grupo ideal para fazer o discernimento e para orientar a
oração. Esta torna-se muito eficaz e nós apercebemos-nos
da alegria, da paz e da serenidade que acompanham a
libertação.
É claro que, no
discernimento, prestamos atenção ao grupo infetado, à
identidade dos espíritos do mal que atuam, no nível em
que atuam e os objetivos que os movem.
Qual é a força da oração de libertação?
É uma pergunta que já várias vezes me fiz. A oração de
libertação muitas vezes chega a substituir o exorcismo.
Aliás, em certos caso não convém fazer o exorcismo, que
deve reservar-se para as situações mais graves. Nos
casos menores, ao contrário, é preferível a oração de
libertação.
Exercendo este ministério, reparei na força extraordinária da oração de louvor: liberta uma força poderosíssima. E também reparei na força da Palavra de Deus, sobretudo das palavras de Jesus. Nós baseamo-nos muito nestes dois elementos: a oração e a Palavra.
No exorcismo oficial
temos três elementos: a oração, a Palavra, a
esconjuração. E, muitas vezes, a conjuração, ou seja, a
ordem dirigida ao Maligno é resolutiva. Nos casos mais
graves não podemos deixar de nos agarrar a ela, porque é
a autoridade da Igreja que intervém.
Na oração da libertação, pelo contrário, a força
decisiva é o louvor. É suficiente pensar em alguns casos
bíblicos. Durante a batalha contra Amalec, Moisés reza
sobre o monte: são os seus braços erguidos em oração que
obtêm a vitória.
Jericó era uma cidade bem
fortificada; e, no entanto, foi suficiente a oração de
louvor a Deus, cantada em redor da cidade, para lhe
derrubar as muralhas.
O Segundo Livro das Crônicas informa-nos sobre os
israelitas que partiram para o deserto do Tecoa; Josafat
colocou os cantores do Senhor, vestidos de paramentos
sagrados, à frente dos homens, para que louvassem a Deus
dizendo: “Louvai o Senhor porque a sua graça dura para
sempre”. Assim que começaram os cânticos de júbilo de
louvor, o Senhor preparou uma armadilha contra os
inimigos de Israel, que foram derrotados.
A oração é forte, sobretudo no Novo Testamento. Cristo
obteve a vitória decisiva sobre o Maligno e a oração de
louvor, com esta vitória, reordena o universo perturbado
pelo pecado. O Maligno tinha tentado apagar o louvor no
céu, arrastando os anjos rebeldes para o inferno.
Tentou, depois, interromper o louvor de Adão, o homem
que devia fazer-se voz do universo e louvar o Criador.
Agora, cada vez que o inimigo ouve a oração de louvor,
escuta a vitória de Cristo vitorioso sobre a morte,
sobre o pecado e sobre os demônios. E Satanás sente uma
inveja fortíssima, porque agora é o homem quem louva a
Deus; no lugar que ele ocupava, agora, está o homem que
se une aos Anjos e louva o Senhor. O Maligno sente-se
frustrado na sua pessoa e nas suas obras; por isso reage
com tanta veemência à oração de louvor.
A oração de intercessão também é muito potente.
Constatamos isso no livro dos Atos, quando os Apóstolos
estão na prisão e a Igreja reza por eles e se dá a
libertação. Do mesmo modo, pouco depois, quando Pedro
está preso, a Igreja reza; e Deus envia o anjo para
libertar o Seu Apóstolo.
Também nas nossas orações, constatamos que o Maligno
fica furioso, sobretudo, durante a oração de libertação
e, freqüentemente, é durante esta oração que foge.
Sublinho, igualmente, a força de Palavra. Nós não
esconjuramos, a não ser que esteja sempre um Sacerdote
autorizado; mas atribuímos muita força à Palavra de
Deus; experimentamos esta força e usamo-la largamente.
Têm especial eficácia as palavras de Jesus e as outras
citações bíblicas que nos são sugeridas. A palavra de
Jesus derrota o inimigo. Quando fazemos a oração de
libertação, pronunciamos lentamente as palavras de
Jesus, escolhendo um dos vários episódios em que ele
expulsa o demônio.
Trata-se de apresentar de
novo a Jesus, de o fazer reviver naquela cena, de
introduzir Jesus, o libertador. As palavras de Jesus
pronunciadas nesse momento, com a força de Espírito,
derrotam o inimigo, que grita e vai-se embora; e vai-se
embora também quando é desmascarado por uma indicação
bíblica.
Tal como o cântico de louvor, também a Palavra de Deus
consola os aflitos, cura os corações dilacerados, cuida
das feridas, infunde esperança, faz com que o paciente
experimente pessoalmente a presença do seu libertador.
Já falamos da oração de
louvor, da palavra de Jesus. Gostaria de acrescentar
mais alguma coisa sobre o modo como estruturamos a
oração. Existe uma libertação de (ou seja, uma
libertação da presença do Maligno; por isso olha-se para
ele) e uma libertação para (vantagem de; e, por isso,
olha-se para a pessoa). Mais importante do que libertar
de, é libertar para. Privilegiamos a libertação para
enquanto trabalhamos pela libertação de. Ou seja,
interessa-nos mais o irmão perturbado que o inimigo; a
atenção vai toda para o irmão. E é por isso que
solicitamos a sua colaboração de todas as maneiras. Em
vez de expulsar o inimigo, procuramos resgatar-lhe o
paciente.
A libertação pode ocorrer de duas maneiras. Imaginemos
uma sala sem que esteja presente o Maligno e o paciente.
Um método é o de apanhar o Maligno e expulsá-lo dali; se
se consegue, o método é bom. Mas também já vimos que é
mais fácil um outro método: aquele de agarrar o paciente
e levá-lo para outro lugar, fora da sala, onde esteja em
segurança. É o método que preferimos, interessa-nos mais
o paciente do que o inimigo.
Interessarmo-nos pelo paciente significa estimulá-lo a
rezar, solicitar a graça de Deus sobre ele e
fortalecê-lo com os sacramentos, ajudá-lo a tomar
consciência da sua situação para que saia dela. Vimos
que, desta maneira, a libertação é mais fácil, pois
transforma-se o homem infestado pelo Maligno num homem
capaz de viver com o filho de Deus.
Com efeito, qual é a finalidade do Maligno?
É destruir o homem-cristão, o homem na sua identidade de
filho de Deus. Nós, então, temos de o tornar capaz de
viver a sua vida filial no Espírito Santo. Por isso,
logo de imediato, invocamos sobre ele o Espírito Santo,
para que preencha os espaços vazios, para que o
corrobore de maneira a que, com a força do Espírito,
possa arrepender-se e viver plenamente a proposta de
vida cristã na fé, na esperança, na caridade.
Também tem muito peso a fé o amor daqueles que intervêm.
Nós pedimos sempre ao Senhor uma grande fé; o nosso
ministério exige muita fé; o Evangelho é claro. A nossa
força é a fé de quem reza e a caridade para com Deus e
para com o próximo.
A fé e a caridade
ajudam-me reciprocamente muito bem. São Gregório Magno,
falando acerca da pregação, afirmava que ninguém pode
exercer este ministério se não tiver caridade para com o
próximo. Nós dizemos o mesmo a respeito do ministério da
libertação. O espírito maléfico não resiste ao amor;
ele, que é fogo, tem medo do fogo do amor. Por isso, nós
procuramos amar o doente, amar quem está infestado, para
além de nos amarmos uns aos outros no grupo. Se não
existe amor não se avança, porque o amor derrota o
inimigo.
O esquema da oração.
O livro de Salvucci, indicazioni pastorali di um
esorcista (Indicações pastorais de um exorcista) (Ed.
Ancora), apresenta um plano muito bom. Nós o seguimos há
já muito tempo.
1- A primeira coisa, a mais importante para começar, é a
invocação do Espírito Santo: Veni, Creator Spiritus.
2- depois, fazemos o discernimento dos espíritos; também
é um aspecto muito importante, que nunca podemos omitir.
Pois, a tarefa mais difícil que o exorcista tem de
desempenhar, mais ainda do que o próprio exorcismo é o
diagnóstico.
É necessário identificar a maneira de atuar dos
espíritos malignos também nos casos menos graves:
tentação, vexação, sedução, infestação, circuncessão (de
que se fala pouco). Estes modos de atuar apresentam
constantes e diferenças, conforme a pessoa, o seu
estado, a sua cultura e ambiente.
Uma das constantes é que, freqüentemente, os espíritos
agrupam-se e unem-se uns aos outros. Se existe um
espírito de ódio, facilmente entra também o espírito da
ira e da vingança; o espírito de gula chama o espírito
da luxúria e da indolência; o espírito da inveja é
sempre seguido por um espírito de soberba. Estes
espíritos podem camuflar-se sob a forma de presenças
pessoais, que apenas são projeções da pessoa ou
personalidades fictícias, sob a ação do espírito.
Outra constante é a sucessão dos espíritos.
Ao espírito que induz ao pecado segue-se um espírito de
desespero, de depressão, de suicídio.
Ao espírito da gnose, que é muito freqüente e que diz respeito ao conhecimento das coisas ocultas, segue-se o espírito de confusão mental e de aberração, que altera o campo das idéias e das convicções.
Em conclusão, é
necessário discernimento para identificar os espíritos
que estão em atividade. Isto deve ser feito em relação
às simples tentações, seduções, vexações; são os casos
mais comuns e mais perigosos porque são obstáculos à
vida cristã.
3- Após este discernimento e depois de verificar quais
os objetivos ou direções de atividade que perseguem
estes espíritos, prossegue-se com o esquema; cuidamos do
doente através da oração. Segue-se uma brevíssima
evangelização, em que apresentamos Jesus, o libertador;
a finalidade é pôr em contato o paciente com aquele que
liberta.
Chegamos a este ponto,
todos intervêm com uma oração livre, sem esquema. E é
bom que não se siga nenhum esquema porque cada caso é
diferente dos outros. Intervém o profeta e lê-se a
Palavra de Deus sugerida. Quando nos apercebemos de que
algo começa a mudar na pessoa sobre quem reza,
procuramos dar maior intensidade à oração, mediante a
oração de intercessão.
Uma coisa importante para nós, antes de avançar para a
oração de libertação, é assegurar-nos da presença de
Cristo no meio de nós, porque quem liberta é Jesus. Não
é difícil porque foi ele próprio quem disse: “Onde dois
ou três estiverem reunidos em meu nome, eu estou no meio
deles” (Mt 18,20).
É nossa missão
sentirmo-nos, ou seja, querermos estar reunidos em seu
Nome. Experimentamos uma sensação de amor, alegria, de
paz; parece quase que sentimos a presença operante do
Senhor e, então, rezamos realmente com fé. Confiamos
fortemente na Palavra de Deus, como nos é repetidamente
indicado pelo profeta. Deste modo, prosseguimos com a
oração até ao fim, sem nenhuma outra preocupação.
4- Assim que a libertação ocorre fica ainda algo por
fazer. Seria um erro abandonar o doente após a
libertação; libertar não é fácil, manter a pessoa livre
é ainda mais difícil.
Todos os exorcistas já fizeram experiência de tantos
casos de recaídas; e a causa, muitas vezes, é ter
abandonado a pessoa após a libertação do maligno.
Por isso, convém que a oração de libertação seja seguida
por um período de convalescença, quase uma terapia de
recuperação. É absolutamente necessário.
O Evangelho fala-nos do espírito maligno que, assim que
sai de uma pessoa, durante algum tempo anda errante por
lugares desertos, depois procura outros sete espíritos
piores do que ele e regressa à mesma pessoa, fazendo com
que a situação desta fique pior que antes (cf. Mt
12,43-45).
Dá-nos o que pensar: é
melhor não fazer a libertação se depois não se consegue
assegurar um período adequado de convalescença. É
necessário não só curar um paciente, mas também
assegurar-lhe uma libertação completa e consolidada.
Compreendemos então por que razão para nós é muito
importante esse segundo período. Foi com esta finalidade
que instituímos serviços coletivos de cura e libertação;
assegurando-los três vezes por semana; duram duas a três
horas; com a participação de muita gente. Procuramos que
todas as pessoas libertadas ou curadas intervenham
nestes serviços.
A nossa maneira de
proceder é a seguinte: Antes de mais nada um encontro
sacramental com Jesus; preparamos as pessoas para a
confissão antes da Missa, porque tem grande importância
a purificação sacramental. Quando começa a Missa,
iniciamos com a aspersão da água, ou seja, de novo com
um rito de purificação que se apela ao Batismo. Na
homilia, sublinhamos de novo o encontro com Jesus,
presente na sua Palavra.
A oração do “Livrai-me” é solene: é o momento litúrgico
da libertação. Neste momento tão especial pedimos de
novo ao Pai, por Jesus presente na Eucaristia, a
libertação moral e psicológica do espírito do mal, se
ainda lá estiver.
Segue-se a comunhão; e,
depois, os doentes, em procissão, dirigem-se para um
amplo salão em que, de novo, apresentamos Jesus, o
libertador. Ritos de purificação, invocações ao Espírito
Santo, cânticos: deste modo, a ser acompanhado pela
comunidade, e não deixado sozinho, após a libertação ou
cura.
Assim, temos uma comunidade terapêutica, um comunidade
de cura, onde todos aqueles que foram curados ou
libertados participam e encontram, na comunidade que
reza, o ambiente adequado para consolidar a libertação
ou cura obtida.
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