Em meio a tantas inovações e informações,
muitas vezes o ser humano sente-se sufocado
e oscila entre a descrença e o sincretismo
diante de questões religiosas. Para alguns,
crer é quase sinônimo de atraso intelectual,
pois a crença parece ser uma realidade
ultrapassada. Do outro lado estão aqueles
que vivem numa miscelânea religiosa, tendo
como princípio de fé realidades provenientes
de diversas religiões ou movimentos
religiosos. Essa observação vale para a
questão dos anjos.
A Igreja Católica, baseando-se nas Sagradas
Escrituras, na herança judaica e nos
escritos dos Santos Padres, crê na
existência dos anjos, como afirma o próprio
Catecismo: “A existência dos seres
espirituais, não-corporais, que a Sagrada
Escritura chama habitualmente de anjos, é
uma verdade da fé. O testemunho da Escritura
a respeito é tão claro quanto a unanimidade
da Tradição.” (CIC, 328). O desenvolvimento
da angeologia (estudo dos anjos) na Igreja
Católica aconteceu principalmente no período
dos padres apostólicos, quando a fé cristã
se viu ameaçada em sua pureza por diversas
heresias.
O confronto mais rigoroso entre o
cristianismo e a filosofia neoplatônica
estimulou Agostinho e o Pseudo-Dionísio a
aprofundar a doutrina tradicional sobre a
natureza e a função salvífica dos anjos. O
Pseudo-Dionisio, autor desconhecido do
século VI, apoiando-se em Proclo, dividiu os
anjos em nove coros, hierarquizando-os em
três tríades de dignidade crescente: 1º
hierarquia - Serafins, Querubins e Tronos;
2º Hierarquia - Dominações, Potências e
Virtudes; 3º Hierarquia - Principados,
Arcanjos e Anjos. Tal nomenclatura celeste
aparece em alguns textos escriturísticos, a
saber: Efésios 1, 21 e Colossenses 1, 16.
Essa hierarquia celeste, em parte, é também
encontrada no Missal Romano no prefácio dos
anjos: “Pelo Cristo vosso Filho e Senhor
nosso, louvam os Anjos a vossa glória, as
Dominações vos adoram, e reverentes, vos
servem Potestades e Virtudes. Concedei-nos
também a nós associar-nos à multidão dos
Querubins e Serafins, cantando a uma só
voz”.
A liturgia cristã, tanto grega quanto
latina, honra os anjos como servos de Deus e
amigos dos homens. Basta lembrar que no dia
29 de setembro celebra-se a festa dos
Arcanjos Miguel, Rafael e Gabriel, e no dia
02 de outubro a festa dos Santos Anjos da
Guarda. A Igreja também associa suas
celebrações à liturgia celeste, como atestam
o Trisagion do ritual de São João Crisóstomo
e o tríplice Sanctus (Santo) do ritual
latino.
Na Igreja Católica, os anjos reconhecidos
pelo nome são apenas três: Miguel, Rafael e
Gabriel, tal como vemos nas Sagradas
Escrituras. Os demais anjos citados nas
páginas sagradas são anônimos. Então, de
onde vem o nome de Haniel que é tido como
chefe dos Principados (anjos que são
representados carregando cetros de madeira
ou cruzes nas mãos)? Certamente a
denominação de Haniel provenha da Cabala
judaica, ramo místico do judaísmo e do atual
mundo esotérico. A Cabala consiste em
interpretações místicas e numerológicas das
Escrituras hebraicas. Os autores da Cabala
tratam cada letra, número e acento das
Escrituras como se fossem um código secreto
contendo algum significado profundo mais
oculto, colocado lá por Deus com algum
propósito, inclusive a profecia.
Dessa forma, entende-se que o denominado
anjo Haniel não é contado entre os anjos que
a Igreja Católica honra, assim como Uriel,
Raguel, Sarakael, Remiel e muitos outros que
são descritos no II Livro de Enoc, que faz
parte da literatura apócrifa judaica e não é
considerado livro canônico, ou seja,
inspirado por Deus.
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