A credibilidade de “O Cruzeiro”
Logo de início, “William X” questiona a credibilidade da
publicação. E com certa razão. Que “O Cruzeiro” chegou a
promover e vender embustes, é ponto pacífico: mesmo em
CeticismoAberto aborda-se, por exemplo, o caso do suposto
disco voador que teria sobrevoado a Barra da Tijuca em 1952,
fraude notória elaborada pelos funcionários Ed Keffel e João
Martins, explorada com estardalhaço pela publicação. É
apenas uma das histórias questionáveis do “Cruzeiro”.
Ceticismo redobrado com relação à apuração jornalística
desta fonte é bem apropriado, por tanto. O que o ceticismo
significa, no entanto, é que a evidência deve ser
considerada com cautela em busca de elementos objetivos e
corroboração independente. De forma alguma implica seja em
seu descarte de antemão, e muito menos que fontes tão ou
mais tendenciosas no caso, como a obra do apologista
espírita Jorge Rizzini sejam consideradas como fontes
automaticamente válidas.
Ceticismo é necessário na
análise de todas as fontes, todos os envolvidos no caso
possuíam seus próprios interesses. É na consideração e
confronto de todas as diferentes versões que conclusões que
permitam uma interpretação da evidência objetiva poderão ser
extraídas.
Quando uma fonte fornece uma declaração que pareça ser
contrária a seus próprios interesses, por exemplo, esta pode
ser considerada com mais atenção. Como veremos, isto é
relevante de pronto.
A evidência objetiva
No caso, são as fotografias publicadas. Defensores do caso
sugerem que as fotos podem ter sido retocadas, mas não
apresentam qualquer evidência a respeito. Em verdade, evitam
mesmo afirmar inequivocamente que qualquer uma das fotos foi
adulterada. Contentam-se com vagas suspeitas.
Vale notar que nem todas as fotografias foram tomadas por
repórteres do Cruzeiro. Mais contrária à realidade dos
fenômenos é a questão de por que, se os fenômenos foram
autênticos, os defensores do caso não apresentaram suas
próprias fotografias, tomadas nessas sessões ou mesmo em
outras, que demonstrassem feitos extraordinários como o
espírito materializado atravessando grilhões sólidos de
metal.
De fato, aparentemente os mesmos defensores do caso
afirmaram entusiasticamente que as fotografias publicadas
pelo “Cruzeiro” demonstravam este feito insólito – o que é
em verdade demonstração clara de sua credulidade e lapsos ao
analisar a evidência, abordada adiante.
Toda a evidência objetiva que restou no caso consiste, como
repetimos, nas fotografias publicadas e conhecidas. É sim
possível que tenham sido retocadas ou adulteradas e que os
apologistas das materializações não o tenham comprovado. É,
contudo, pouco provável.
Ressaltamos mais uma vez que
os apologistas possuíam todo o interesse em demonstrar uma
suposta adulteração das fotografias pelo Cruzeiro e devem
ter investido todos os esforços neste sentido. Mesmo na
indisponibilidade dos negativos para análise, adulterações
mais grosseiras poderiam ter sido descobertas. Mesmo porque,
ao mesmo tempo, apologistas do caso também se animaram a
implicar como sua análise das fotografias era tão ou mesmo
mais válida que a análise conduzida pelo especialista a
serviço do Cruzeiro. Clamam inclusive que sua análise “com
melhor aparelhagem” refutaria a do Cruzeiro.
Que tenham se resumido a divulgar simples suspeitas sobre a
integridade das imagens é um indicador que de que não
encontraram evidência de adulteração, e sugere desta forma
que as imagens não devem ter sido adulteradas.
Repetimos também, ainda outra vez, que toda esta questão
seria de menor relevância caso os apologistas tivessem
produzido evidência objetiva que ilustrasse a
extraordinariedade das materializações. Não o fizeram. A
evidência objetiva disponível ao invés denuncia a fraude,
por ser em todo aspecto ordinária e plenamente compatível
com os métodos de fraude pelos quais a médium Otília Diogo
foi exposta.
A evidência subjetiva e testemunhal
Defensores das materializações de Uberaba estendem-se
longamente nos relatos e nas muitas versões e contestações
mútuas das diferentes partes envolvidas. Embora isto seja
relevante, sugerimos aqui que são de muito pouca relevância,
justamente porque, como atentamos no início, todas as partes
envolvidas possuíam seus próprios interesses. Não havia
nenhuma parte desinteressada, e todo o episódio foi apenas
um simulacro de teste controlado.
Ainda que declarassem o contrário, ainda que buscassem
demonstrar o contrário, mesmo uma simples lembrança do
histórico da investigação espiritualista, da metapsíquica à
pesquisa parapsicológica moderna demonstra há mais de um
século como testemunhos podem ser pouco confiáveis, e como
mesmo pesquisadores experientes podem ser enganados em seus
mais elaborados controles. Pode-se mesmo indicar que quanto
mais elaborados, quanto mais dependentes de inúmeros
elementos, mais propensos à fraude são os controles. O
cético James Randi e seu Project Alpha são um caso
ilustrativo aos interessados.
Os elaborados controles descritos em detalhe e com destaque
pelos apologistas são assim de pouco valor metodológico e
não serão abordados em qualquer profundidade aqui. Afirmar
que seria “impossível” a fraude é em verdade apenas expor
certa ingenuidade. A fraude é quase sempre possível, e a
pesquisa parapsicológica moderna investe enorme esforço para
projetar experimentos que sejam menos propensos à enganação
ou ao engano – e ainda assim, mesmo experimentos
metodologicamente sofisticados como os Ganzfeld são temas
polêmicos.
Comparados a eles, os “controles” usados nas sessões de
materialização de Uberaba são risíveis, típicos e em nada
diferentes das primeiras experiências espiritualistas
Vitorianas em fins do século 19. Experiências, é relevante
atentar, vulneráveis a todo tipo de fraude. Considerá-los
invulneráveis é manifestar mero pensamento positivo por
parte dos que defendam a autenticidade dos fenômenos.
Consideração mais atenta a tais controles sim seria
interessante se o restante da evidência indicasse que eles
teriam obtido sucesso em evitar fraude. Ocorre justamente o
contrário.
O Contrário

“O DR. ELIAS BOAINAIM, ladeado pelo Dr. Oswaldo de Castro,
mostra perante às câmaras de televisão a foto, que aparece
ao lado, da materialização da Irmã Josefa atravessando a
jaula”.
É parte da apresentação televisiva em 29 de novembro de 1963
da equipe de médicos que teria investigado e asseverado a
autenticidade dos eventos. Boianaim era cardiologista do
Instituto de Cardiologia, já Castro era cirurgião do
Hospital das Clínicas, ambos de São Paulo. Títulos
respeitáveis. Não significam, contudo, que fossem
invulneráveis ao engano. E mesmo ao engano elementar.
A foto apresentada por Boianaim e Castro é claramente esta,
contando com Waldo Vieira e Chico Xavier:

Seria mesmo evidência do
espírito materializado atravessando as barras? O blog
“Crítica Espiritualista” defendeu que sim, argumentando que
a posição das barras faria com que pelo menos uma delas
atravessasse a cabeça de uma pessoa de carne e osso.
Infelizmente, o blog foi restrito, aparentemente pelo
próprio autor, e a ilustração que divulgava para comprová-lo
não está mais disponível.
Apresentamos aqui no entanto uma ilustração simples e
elementar indicando como em verdade não há nenhuma evidência
de que a foto exibe algo além de uma pessoa coberta de
panos, com parte da viseira (a), os dois braços (b e c) e um
pedaço de pano (d) do lado de fora das grades[2].

Note-se que o crânio de Diogo
em nenhum momento é “trespassado” por qualquer dos grilhões.
A suposta médium simplesmente posicionou a cabeça no vão
entre dois grilhões verticais, jogando o capuz que a recobre
sobre uma das barras horizontais.
Os braços estão simplesmente, e igualmente atravessando os
vãos. E um simples pedaço de pano também foi jogado por
sobre grilhões horizontais. Essa é a extraordinária
“evidência” de que o “espírito” estaria atravessando as
grades, de acordo com a equipe de médicos, de acordo com
William X em sua “Crítica Espiritualista”.
Como ressaltamos, esta nem é uma análise aprofundada. É, ou
deveria ser, óbvio. É opinião deste autor que modelagem
tridimensional da cena poderia ilustrar adicionalmente como
não há em nenhum momento algo extraordinário aqui e como
Otília Diogo permaneceu atrás das grades, mas esta é
desnecessária. Nem mesmo a precária ilustração acima deveria
ser necessária.
O impressionante é que a reportagem do Cruzeiro de 8
de fevereiro de 1964 já expunha toda esta obviedade logo de
início! Ainda assim, apologistas do caso, 46 anos depois,
insistem no erro e inventam posições absurdas para as barras
supostamente atravessarem o corpo de um espírito
materializado.

Note-se como as imagens do
Cruzeiro tornam ainda mais claro o pedaço de véu jogado
sobre as barras horizontais (d), bem como a disposição das
barras. O Cruzeiro ainda aponta vincos nos véus, que embora
pouco claros, podem sim ser vistos, indicando como o véu
havia sido dobrado.
A evidência objetiva denuncia claramente o embuste desde a
denúncia do Cruzeiro de 1964[3]. Se a publicação em si
possuía credibilidade questionável, a evidência objetiva, as
fotografias, como vimos, são mais confiáveis. Ainda mais, o
especialista Carlos Eboli que conduziu a análise exposta
realizou um trabalho simples e claro por si mesmo.
É apenas uma mulher coberta de panos. Que os técnicos
apresentados pelos apologistas do caso para refutar a
análise de Éboli tenham ignorado estas obviedades, e toda a
questão dos “laudos” conflitantes, será abordada em mais
detalhe em uma outra oportunidade.
Dessemelhanças óbvias?
Além de alegar que as fotos evidenciariam o espírito
atravessando a jaula, o que como vimos, é exatamente o
oposto do que demonstram, alega-se que:
“A perícia de São Paulo identificou óbvias dessemelhanças
entre a face de Otília Diogo e Irmã Josefa (espírito)
confrontadas com Alberto Veloso (espírito). Houve
identificação de algumas pequenas diferenças entre a médium
e a freira irmã Josefa”.
Muito bem. Quais seriam estas dessemelhanças óbvias? William
X resume-se a afirmar que “os rostos são diferentes
(infelizmente a imagem não possui qualidade das originais)”.
As dessemelhanças não são nada óbvias. Pelo contrário. Há
semelhanças óbvias:

Otília Diogo possuía
sobrancelhas demarcadas e um nariz proeminente, que podem
ser vistos claramente no espírito masculino. Também se
destaca o volume acima da cabeça, explicado facilmente pela
cabeleira de Diogo. Todos estes elementos, repetimos, já
eram ressaltados na análise de Carlos Eboli em 1964.
A única dessemelhança óbvia parece ocorrer na parte inferior
do rosto, mas esta teria explicação simples: Otília Diogo
usava falsa barba para “materializar” o espírito masculino.
Haveria outras dessemelhanças óbvias? Se havia, como ocorreu
com a sugestão de que as fotos teriam sido adulteradas, os
apologistas do caso simplesmente não parecem interessados em
apontá-las. Ou talvez não sejam capazes, porque as fotos não
foram adulteradas, e porque os espíritos eram ambos a
própria médium.
Semelhança morfológica
Curiosamente, mesmo apologistas do caso notam como “a
semelhança morfológica entre Otília Diogo e irmã Josefa, até
certo ponto, é notória”.
Esta é, evidentemente, uma declaração muito comedida para
uma semelhança escandalosa. Quão conveniente não é que o
suposto espírito fosse idêntico ao rosto da médium que dizia
materializá-lo?

Acima, Otília Diogo, e a suposta materialização como a irmã
Josefa.

Novamente Diogo em comparação com a suposta imagem da irmã
Josefa em vida.
Quão conveniente também não é que o espírito masculino
materializado por Diogo possuísse não apenas face similar a
ela (com exceção da barba postiça), como também um porte
físico idêntico à médium… e ao espírito feminino.

“Saliência feminina”
“Crítica Espiritualista” busca questionar os volumes que
podem ser vistos na suposta materialização masculina,
atribuídos por Eboli aos seios de Diogo – e visíveis, também
obviamente, na suposta materialização feminina.
De fato, apenas uma fotografia com dobras dos véus que
indicassem possíveis volumes na altura do tórax poderia
talvez ser explicada como mera casualidade. Roupas podem
dobrar-se de forma peculiar.
Quando porém quase todas as fotografias do espírito
masculino mostram as mesmas dobras indicando o volume de
mamas, e de forma idêntica ao espírito feminino, a incerteza
deve ser proporcionalmente menor.
Já na comparação acima entre o porte físico dos espíritos
feminino e masculino se pode perceber o volume dos seios em
ambos “espíritos”. A comparação também indica pregas nos
ombros e mangas dos véus usados por eles.

Todos estes comentários podem ser encontrados já na análise
de Eboli em 1964[4], com fotografias de referência.
Conclusão
Como mesmo apologistas admitem, Otília Diogo fraudou
materializações, utilizando véus, barbas postiças e outros
adereços, idênticos aos que se evidenciam desde as
materializações testemunhadas por Chico Xavier e Waldo
Vieira, tema da celeuma inicial. Há de se notar que o
próprio Xavier, que endossou enfaticamente a autenticidade
das supostas materializações que teria testemunhado, teceu
comentários lamentando, e reconhecendo, que Diogo recorreu à
fraude.
O detalhe, lembram os defensores das “materializações de
Uberaba”, é que este reconhecimento pacífico da fraude só se
refere às materializações de Diogo a partir de 1965.
Convenientemente e quase imediatamente posteriores ao
envolvimento de Xavier e Vieira.
Vimos aqui entretanto que a única evidência objetiva das
sessões de Uberaba demonstra claramente sinais de fraude, e
fraude precária, evidente, óbvia. Argumentamos como a
evidência subjetiva e testemunhal não é de grande valia, e
notamos como a equipe que deveria assegurar e “testar” os
fenômenos foi crédula a ponto de apresentar fotografias nada
extraordinárias como evidência de um espírito atravessando
grilhões de uma jaula.
Indicamos como mesmo hoje, 46 anos depois, apologistas do
caso continuam demonstrando tal credulidade ao enxergar nas
imagens feitos sobrenaturais, quando elas evidenciam o
contrário. Simplesmente uma mulher coberta de véus,
passando-se por um espírito feminino e outro masculino que
eram em todos os aspectos idênticos a ela mesma. Salvo pelos
véus, vincados por dobras, e por adereços como barbas
postiças. Que foram encontrados na maleta da suposta médium
anos depois. Que confessou promover sessões fraudulentas.
Recentemente, mesmo Waldo Vieira, das figuras consideradas
enfaticamente por Jorge Rizzini como autenticando os
fenômenos e acima de qualquer dúvida, admitiu que desde o
início considerava Otília Diogo uma figura duvidosa. Vieira
defende que Diogo possuiria alguma mediunidade autêntica,
mas reconhece e dá boa margem ao entendimento de que as
materializações de Uberaba testemunhadas por ele e Xavier
sim foram fraudadas.
Apologistas passaram então a questionar o testemunho de
Vieira, algo que enfatizamos,contraria os muitos comentários
Rizzini, que os mesmos apologistas continuam tomando como
referência. Pelo visto, apenas quando lhes é conveniente.
Nesta questão, este autor foi questionado por que aceitaria
o testemunho de Vieira, da mesma forma, apenas quando lhe
seria conveniente. Espero que esteja clara aqui a diferença:
o testemunho de Vieira admitindo a natureza dúbia dos
fenômenos de Diogo é apenas um elemento secundário e
adicional, parte da evidência testemunhal.
Ele é considerado aqui como passível de aceitação e
consideração séria não apenas porque apenas complementa a
evidência objetiva, como porque, como notamos inicialmente,
contraria o próprio interesse aparente de Vieira. É curioso
notar que apologistas passem mesmo a questionar a sanidade
ou a boa fé de Vieira.
Já sua declaração de que Diogo possuiria mediunidade
autêntica, é algo que não possui qualquer evidência
corroboradora independente. Por sua vez, a questão da
mediunidade de Chico Xavier seria outra questão quase
completamente diferente, tema para outro espaço e discussão.
Deve estar claro que a única figura que se pode afirmar ter
agido de má fé em todos estes eventos é Otília Diogo. A
própria confessou seu embuste, exposto claramente. Todos os
outros envolvidos podem ter sido enganados, em um ou outro
momento.
Todo e qualquer um pode se enganar; pode ser enganado. É
natural de todo ser humano. Devotos de Chico Xavier parecem
não admitir a possibilidade de que o mesmo fosse humano, e
no processo, elaboram justificativas elaboradas para
acreditar no inacreditável, em uma demonstração clara de
dissonância cognitiva.
Há 46 anos já era evidente, como deve ser hoje: era falsa a
materialização de Uberaba.
[1] http://criticaespiritualista.blogspot.com/2010/04/critica-materializacoes-de-uberaba-x-o_01.html
[2] Note-se que uma das linhas horizontais na ilustração é
pontilhada. Ela aparentaria ser uma barra horizontal da
jaula, e de fato é, mas é uma barra horizontal da jaula ao
fundo. Outras imagens da jaula demonstram que havia apenas
três barras horizontais. Isso facilita e torna ainda mais
fácil compreender a disposição do corpo da suposta médium.
[3] http://obraspsicografadas.haaan.com/2010/resgate-histrico-revista-o-cruzeiro-de-08021964/
[4] http://obraspsicografadas.haaan.com/2010/resgate-histrico-revista-o-cruzeiro-de-08021964/